Ano passado eu comecei a me iniciar em alta montanha.
Eu e um grupo de mais quatro amigos fomos ao Equador com o objetivo
de subir o vulcão Cotopaxi, vulcão ativo mais alto
do mundo. Escolhemos o Equador por ter montanhas altas de relativo
fácil acesso. No entanto, em vez de subirmos o Cotopaxi pela
rota comercial da face norte, um suave zigue-zague que mais se assemelha
a um trekking em altitude do que a uma escalada, decidimos subir
pela faze sul, uma direta muito mais íngreme. Isso porque
quando montanhistas vão subir uma montanha, procuram por
um desafio, uma forma de chegar perto dos limites. Dessa forma,
subir o Cotopaxi pela rota comercial não nos parecia um grande
desafio. A rota sul também não era muito técnica,
apenas mais desafiante. Fizemos um programa de aclimatação
de 10 dias, fazendo trekkings em altitude e subindo outras duas
montanhas mais baixas, e só começamos a subir o Cotopaxi
em si no décimo segundo dia.
No final, uma amiga que estava muito bem preparada fisicamente,
acabou “quebrando” psicologicamente e resolveu voltar.
Com isso um outro amigo que estava encordado com ela perdeu tempo,
acabou se encordando com um segundo amigo menos preparado fisicamente
e perdeu sua oportunidade de chegar ao cume. Eu e um terceiro amigo
conseguimos chegar ao cume, mas não sem antes termos falado
em desistir por quatro ou cinco vezes.
O fato da minha amiga, atleta de corrida de aventura e de longe
a pessoa com melhor preparo físico do grupo, ter desistido,
demonstra que não é necessário somente preparo
físico para escalar uma montanha de 6.000 m de altitude,
mas também muita harmonia psicológica.
Quando eu e o meu amigo chegamos ao cume, ele me disse “Caramba,
eu não acredito que a gente conseguiu!”, ao que eu
respondi, “Calma, falta ainda a metade mais difícil:
descer.” Ele me olhou com olhar grave de quem percebeu a ficha
caindo e como quem dizia “Realmente, você tem razão;
vamos sair daqui logo.” A montanha que havíamos subido
é cheia de fendas que ficam cobertas pelo gelo, motivo pelo
qual devemos escalar durante a noite e voltar antes que o sol comece
a derreter o gelo que fica por cima das fendas, o que poderia gerar
quedas nessas gretas de 25 a 50 m de profundidade.
Descemos praticamente calados, muito concentrados no que fazíamos.
Como eu disse, a descida de uma montanha sempre é mais perigosa
do que a subida. As estatísticas demonstram que o número
de acidentes em montanhismo é muito maior na descida. Durante
a descida, estamos mais fracos, cansados, há mais tempo na
montanha e por isso mais sujeitos ao mal da altitude e, por tudo
isso, mais propensos a acidentes.
Conheci o Vitor Negrete em 2004, durante a corrida de aventura
Ecomotion Pro 2004 na Costa do Dendê, na Bahia, maior corrida
de aventura do Brasil, quando fiz apoio para a equipe brasiliense
Caliandra/Martim Pescador. Voltei a encontrá-lo em outra
corrida, no Brasil Wild na Serra da Mantiqueira, no começo
do ano passado, quando ele ainda corria pela mesma equipe, a Try
On-Landscape, poucos dias antes dele viajar para sua primeira tentativa
de escalar o Everest. Cheguei a indagar sobre a guiagem que ele
fazia ao Aconcágua através da Grade VI, empresa do
seu companheiro Rodrigo Raineri. Só troquei com ele algumas
idéias, nunca fomos amigos. Mas dessas poucas palavras que
troquei com ele e de entrevistas que já havia assistido,
sei que ele era uma pessoa surpreendentemente calma e sensata. Seus
amigos dizem que mesmo em situações de perigo extremo
ele sempre manteve a calma e a serenidade. Conheci seu companheiro,
Rodrigo Raineri, durante uma palestra que ele fez há alguns
anos sobre a ascensão à face sul do Aconcágua.
Uma escalada ao Everest não se compara com a escalada que
eu fiz ao Cotopaxi. Acima de 7600 m de altitude encontra-se a chamada
“zona da morte”, onde nenhum ser humano é capaz
de sobreviver por muito tempo. Acima de 7600 m, sem oxigênio
suplementar o organismo fica muito mais vulnerável a edemas
pulmonar e cerebral, hipotermia, queimaduras, necroses e mais uma
infinidade de outros perigos mortais. Quando voltou da sua terceira
expedição ao Everest, George Mallory (ele morreria
na quarta expedição juntamente com Andrew Irvine em
1924; até hoje se especula se eles chegaram ao cume ou não)
já se convencera de que o cume jamais seria atingido sem
oxigênio suplementar e conformou-se em usá-lo.
Experiências conduzidas em câmeras de descompressão
já haviam demonstrado, àquela altura, que um ser humano
saído do nível do mar e despejado no topo do Everest,
onde o ar contém apenas um terço do oxigênio,
perderia a consciência em poucos minutos e morreria logo depois.
Porém, vários alpinistas idealistas continuaram insistindo
que um bom atleta, dotado de raros atributos físicos, conseguiria,
depois de um longo período de aclimatação,
escalar o pico sem o uso de oxigênio engarrafado.
Os puristas inclusive levaram essa linha de raciocínio às
suas últimas conseqüências e diziam que usar oxigênio
artificial era trapaça.
Nos anos 70, o famoso alpinista tirolês Reinhold Messner,
que viria a ser o primeiro alpinista a escalar todos os 14 cumes
com mais de 8.000 m sem oxigênio suplementar, surgiu como
o principal proponente da escalada sem oxigênio engarrafado,
declarando que ou escalava o Everest “da forma correta”
ou não escalava e pronto. Pouco depois disso, ele e seu velho
parceiro, o austríaco Peter Haebeler, surpreenderam a comunidade
internacional de alpinismo cumprindo a promessa: às 13h00
do dia 8 de maio de 1978 eles chegaram ao cume pela trilha do colo
sul e da crista sudeste (a rota clássica aberta por Hillary
e Norgay na primeira ascensão bem sucedida ao cume) sem usar
oxigênio suplementar. O feito foi saudado em alguns círculos
de alpinistas como a primeira verdadeira escalada do Everest.
A histórica façanha de Messner e Haebeler não
foi, porém, recebida com salvas em todos os quadrantes, sobretudo
entre os sherpas, indivíduos nepaleses de etnia tibetana
que, por nascerem acima de 5.000 m de altitude, são bem adaptados
ao Everest e sempre foram os carregadores das expedições
ao topo do mundo.
A maioria deles simplesmente se recusou a acreditar que um ocidental
fosse capaz de um feito que nunca fora realizado nem mesmo pelo
mais forte dos sherpas. Não faltaram especulações
de que Messner e Haebeler haviam respirado oxigênio de garrafas
em miniatura escondidas nas roupas. Tenzing Norgay e outros sherpas
eminentes assinaram uma petição exigindo que o governo
nepalês realizasse um inquérito oficial sobre a suposta
escalada.
Contudo, as evidências sustentando a escalada sem oxigênio
suplementar eram irrefutáveis. Além do mais, dois
anos depois Messner calou a boca de todos aqueles que tinham dúvidas
viajando até o lado tibetano do Everest e fazendo outra escalada
sem oxigênio – dessa vez inteiramente só, sem
o apoio de sherpas nem de ninguém. Em relação
a quando chegou ao topo, às 15h00 do dia 20 de agosto de
1980, em meio a nuvens pesadas e nevasca, Messner disse: “Eu
me sentia em agonia constante; nunca na vida me senti tão
cansado”. Em The Crystal Horizon, seu livro sobre a escalada
(sem tradução no Brasil), ele descreve os metros finais
até o topo:
Quando descanso sinto-me sem vida, exceto que minha garganta queima
quando respiro. (...) Mal posso prosseguir.
Não há desespero, não há felicidade,
não há ansiedade. Não é que eu tenha
perdido o domínio de minhas sensações, na verdade,
não há mais sensação nenhuma. Eu sou
apenas força de vontade.
Após alguns poucos metros, também isso se dissolve
num cansaço sem fim. Aí não penso nada. Deixo-me
cair e fico ali, estirado.
Por um tempo indefinido permaneço completamente irresoluto.
Depois dou alguns passos outra vez.
Após o retorno de Messner à civilização,
sua subida foi saudada como a maior façanha do alpinismo
de todos os tempo.
Depois que Messner e Haebeler provaram que era possível
subir o Everest sem oxigênio suplementar, uma série
de alpinistas ambiciosos concordou que ele devia ser escalado sem
oxigênio engarrafado. Dali em diante, para todos aqueles que
aspiravam integrar a elite do Himalaia, abrir mão da garrafa
de oxigênio era obrigatório. Até hoje, cerca
de 2300 pessoas já chegaram ao cume e cerca de 190 já
morreram tentando escalar o Everest. Até essa temporada,
cerca de 100 homens e mulheres já chegaram ao cume sem oxigênio
suplementar – sendo que cerca de 10 não voltaram para
contar a história, entre eles, Vitor Negrete.
Como eu só consegui dados atualizados até 2002, não
consegui chegar a um número preciso.
A aclimatação para o Everest é de pelo menos
um mês, três vezes mais do que precisamos para o Cotopaxi.
Há trechos extremamente técnicos, como a travessia
de glaciares, que são como rios de gelo. Além disso,
há um grande número de pessoas na montanha durante
os meses de abril e maio, quando as monções permitem
uma ou duas janelas de tempo bom para a tentativa do cume. Isso
sem contar o ar rarefeito, fininho, e que é preciso montar
e desmontar acampamentos, subir e descer dos acampamentos intermediários
várias vezes, e administrar a diplomacia entre os outros
escaladores.
Apesar de haver uma ética respeitada na montanha, roubos
de campos avançados têm sido reportados regularmente,
inclusive com mortes como conseqüência.
No dia 16 de maio, ao chegar ao Campo 2 (a expedição
tentava a face norte, mais difícil que a rota clássica),
durante sua subida de tentativa de cume, Vitor recebeu a má
notícia de que um de seus companheiros de expedição,
o inglês David Sharp, havia morrido na montanha, e outro companheiro
malaio estava com enregelamento em dois dedos. Para piorar, alguém
havia roubado os equipamentos e alimentos que eles haviam deixado
no C2.
Vitor disse que estes acontecimentos haviam afetado ele profundamente,
e que chegou a pensar em cancelar a ascensão.
No entanto, o malaio Ravi Chandran pediu a Vitor que alcançasse
o cume por ele. Ele planejava chegar ao cume por volta do meio-dia,
descansar por cerca de uma hora, e voltar para o Campo 3 por volta
das 21h00, com a esperança de que tudo estivesse intacto.
Em 17 de maio Vitor reportou do C3 que estava se preparando para
o cume. “Eu vou sair hoje à noite, sem oxigênio,
sem sherpas e sem telefone de satélite, já que as
baterias do meu já estão quase no fim. Eu estou indo
completamente sozinho e prometo ser cuidadoso”.
Vitor chegou ao cume no dia 18 ao meio-dia. Apesar de estar sem
telefone satelital, tinha um rádio-comunicador e em algum
momento da volta chamou Dawa Sherpa – profissional que o auxiliava
na escalada, e que o aguardava no C3.
O sherpa o encontrou e prestou socorro ao montanhista ainda vivo,
levando-o até o C3. Dentro de uma barraca, Negrete não
resistiu e às 02h00 da madrugada (horário do Nepal),
do dia 19, veio a falecer. Seu companheiro, Rodrigo Raineri, estava
mais abaixo descansando de uma tentativa anterior frustrada e estava
recuperando suas forças para uma nova tentativa durante uma
janela prevista para o dia 25.
No lado tibetano da montanha, onde está o corpo de Vitor,
não é permitido o pouso de helicópteros. Acima
de 7600 m de altitude, os alpinistas mal conseguem carregar o próprio
corpo, muito menos o corpo de outra pessoa. Dessa forma, Rodrigo
vai esperar a próxima janela de bom tempo para enterrar o
corpo de Vitor no local onde está.
Vitor também chegou ao cume do Aconcágua cinco vezes,
incluindo a primeira ascensão brasileira pela face sul. Juntamente
com seu companheiro Rodrigo Raineri, os dois foram os primeiros
brasileiros a vencer os 6.962 metros da mais alta montanha das Américas
pela face sul, em janeiro de 2002. Esta é considerada uma
das mais difíceis e perigosas escaladas do mundo, superando
o próprio Everest em dificuldade técnica.
Eles voltaram ao Aconcágua, em agosto de 2004, liderando
um grupo que se propôs a chegar ao cume no inverno, estação
em que a magnitude do desafio se multiplica, por causa das nevascas
e temperaturas de até 50 graus abaixo de zero.
Ano passado a dupla enfrentou uma péssima temporada no Everest.
Mesmo com o objetivo de escalar a montanha mais alta do mundo sem
oxigênio suplementar, por medida de segurança, os alpinistas
mudaram de estratégia e decidiram utilizar os cilindros.
No dia 02 de junho, Negrete conquistou o ponto mais alto do planeta.
Rodrigo Raineri chegou aos 8.800 metros, mas como já era
tarde e estava sozinho, resolveu voltar ao Campo 3, preservando
sua segurança.
Vitor era a sétima vítima fatal na área do
Everst esse ano até o fechamento desse artigo. Além
do inglês David Sharp, três sherpas morreram no trecho
conhecido como cascata de gelo, e outro sherpa morreu de HAPE, ou
High Altitude Pulmonar Edema (Edema Pulmonar de Grande Altitude)
na face norte, e um tcheco caiu da parede do Lhotse, montanha ao
lado do Everest.
Vitor conseguiu o seu objetivo, que era chegar ao cume pela face
norte sem oxigênio suplementar. O fato dele não ter
conseguido voltar por suas próprias pernas indica que houve
uma ou mais das seguintes situações: exaustão
por falta de oxigênio suplementar; HACE, ou High Altitude
Cerebral Edema (Edema Cerebral de Grande Altitude); ou HAPE .
O HACE é menos comum do que o HAPE, mas costuma ser mais
perigoso. Sendo uma enfermidade que ainda confunde os cientistas,
o HACE ocorre quando os vasos sanguíneos do cérebro,
com falta de oxigênio, começam a vazar líquido,
o que provoca um inchaço pronunciado do cérebro e
pode surgir com pouco ou nenhum aviso. À medida que a pressão
vai aumentando dentro do crânio, as funções
motoras e mentais se deterioram com uma velocidade alarmante –
em geral dentro de algumas horas, ou menos ainda –, sem que
a vítima sequer perceba que houve alguma mudança.
O passo seguinte é o coma e, depois, a menos que a pessoa
afetada seja evacuada depressa para uma altitude menor, a morte.
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