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VITOR NEGRETE
Texto: Rodrigo Bulhões
A aclimatação para o Everest é de pelo menos um mês, três vezes mais do que precisamos para o Cotopaxi. Há trechos extremamente técnicos, como a travessia de glaciares, que são como rios de gelo. Além disso, há um grande número de pessoas na montanha durante os meses de abril e maio, quando as monções permitem uma ou duas janelas de tempo bom para a tentativa do cume. Isso sem contar o ar rarefeito, fininho, e que é preciso montar e desmontar acampamentos, subir e descer dos acampamentos intermediários várias vezes, e administrar a diplomacia entre os outros escaladores. Apesar de haver uma ética respeitada na montanha, roubos de campos avançados têm sido reportados regularmente, inclusive com mortes como consequência.

No dia 16 de maio, ao chegar ao Campo 2 (a expedição tentava a face norte, mais difícil que a rota clássica), durante sua subida de tentativa de cume, Vitor recebeu a má notícia de que um de seus companheiros de expedição, o inglês David Sharp, havia morrido na montanha, e outro companheiro malaio estava com enregelamento em dois dedos. Para piorar, alguém havia roubado os equipamentos e alimentos que eles haviam deixado no C2. Vitor disse que estes acontecimentos haviam afetado ele profundamente, e que chegou a pensar em cancelar a ascensão. No entanto, o malaio Ravi Chandran pediu a Vitor que alcançasse o cume por ele. Ele planejava chegar ao cume por volta do meio-dia, descansar por cerca de uma hora, e voltar para o Campo 3 por volta das 21h00, com a esperança de que tudo estivesse intacto. Em 17 de maio Vitor reportou do C3 que estava se preparando para o cume. “Eu vou sair hoje à noite, sem oxigênio, sem sherpas e sem telefone de satélite, já que as baterias do meu já estão quase no fim. Eu estou indo completamente sozinho e prometo ser cuidadoso”. Vitor chegou ao cume no dia 18 ao meio-dia. Apesar de estar sem telefone satelital, tinha um rádio-comunicador e em algum momento da volta chamou Dawa Sherpa – profissional que o auxiliava na escalada, e que o aguardava no C3. O sherpa o encontrou e prestou socorro ao montanhista ainda vivo, levando-o até o C3. Dentro de uma barraca, Negrete não resistiu e às 02h00 da madrugada (horário do Nepal), do dia 19, veio a falecer. Seu companheiro, Rodrigo Raineri, estava mais abaixo descansando de uma tentativa anterior frustrada e estava recuperando suas forças para uma nova tentativa durante uma janela prevista para o dia 25. No lado tibetano da montanha, onde está o corpo de Vitor, não é permitido o pouso de helicópteros. Acima de 7600 m de altitude, os alpinistas mal conseguem carregar o próprio corpo, muito menos o corpo de outra pessoa. Dessa forma, Rodrigo vai esperar a próxima janela de bom tempo para enterrar o corpo de Vitor no local onde está. Vitor também chegou ao cume do Aconcágua cinco vezes, incluindo a primeira ascensão brasileira pela face sul. Juntamente com seu companheiro Rodrigo Raineri, os dois foram os primeiros brasileiros a vencer os 6.962 metros da mais alta montanha das Américas pela face sul, em janeiro de 2002. Esta é considerada uma das mais difíceis e perigosas escaladas do mundo, superando o próprio Everest em dificuldade técnica. Eles voltaram ao Aconcágua, em agosto de 2004, liderando um grupo que se propôs a chegar ao cume no inverno, estação em que a magnitude do desafio se multiplica, por causa das nevascas e temperaturas de até 50 graus abaixo de zero.

Ano passado a dupla enfrentou uma péssima temporada no Everest. Mesmo com o objetivo de escalar a montanha mais alta do mundo sem oxigênio suplementar, por medida de segurança, os alpinistas mudaram de estratégia e decidiram utilizar os cilindros. No dia 02 de junho, Negrete conquistou o ponto mais alto do planeta. Rodrigo Raineri chegou aos 8.800 metros, mas como já era tarde e estava sozinho, resolveu voltar ao Campo 3, preservando sua segurança.
Vitor era a sétima vítima fatal na área do Everst esse ano até o fechamento desse artigo. Além do inglês David Sharp, três sherpas morreram no trecho conhecido como cascata de gelo, e outro sherpa morreu de HAPE, ou High Altitude Pulmonar Edema (Edema Pulmonar de Grande Altitude) na face norte, e um tcheco caiu da parede do Lhotse, montanha ao lado do Everest. Vitor conseguiu o seu objetivo, que era chegar ao cume pela face norte sem oxigênio suplementar. O fato dele não ter conseguido voltar por suas próprias pernas indica que houve uma ou mais das seguintes situações: exaustão por falta de oxigênio suplementar; HACE, ou High Altitude Cerebral Edema (Edema Cerebral de Grande Altitude); ou HAPE . O HACE é menos comum do que o HAPE, mas costuma ser mais perigoso. Sendo uma enfermidade que ainda confunde os cientistas, o HACE ocorre quando os vasos sanguíneos do cérebro, com falta de oxigênio, começam a vazar líquido, o que provoca um inchaço pronunciado do cérebro e pode surgir com pouco ou nenhum aviso. À medida que a pressão vai aumentando dentro do crânio, as funções motoras e mentais se deterioram com uma velocidade alarmante – em geral dentro de algumas horas, ou menos ainda –, sem que a vítima sequer perceba que houve alguma mudança. O passo seguinte é o coma e, depois, a menos que a pessoa afetada seja evacuada depressa para uma altitude menor, a morte. O aumento do fluxo sanguíneo nos pulmões pode causar o vazamento de fluidos dos vasos sanguíneos para os espaços de ar, produzindo o HAPE. Os fluidos obstruem e dificultam a difusão do oxigênio para o sistema sanguíneo, piorando o débito de oxigênio presente no organismo. Inicialmente a vítima do HAPE perceberá uma marcante falta de ar ao menor esforço e desenvolverá uma tosse seca e cortante. Com o acumulo de quantidades maiores de fluido nos pulmões, a vítima apresenta respiração ofegante mesmo em períodos de descanso, e uma tosse que produz escarro espumoso, geralmente avermelhado. A vitima torna-se ansiosa, não consegue descansar, e tem um pulso rápido e martelado. Pode ocorrer cianose (coloração azulada dos lábios e sob as unhas, indicando oxigenação pobre do sangue).
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