Paulista de Campinas, Vitor Negrete, 38 anos, deixa a mulher Marina Soler e dois filhos: Leon, de dois anos e o caçula Davi, de apenas sete meses. Ao lado de Rodrigo Raineri, Vitor Negrete, foi um dos mais destacados e experientes alpinistas do país. Esse ano, infeliz coincidência, faz 10 anos da maior tragédia ocorrida no Everest, quando, na temporada de 1996, nove pessoas morreram durante uma súbita tempestade. Um jornalista inglês uma vez publicou uma frase creditada a Sir Edmund Hillary, primeiro ocidental a chegar ao cume do Everest, juntamente com o sherpa Tenzing Norgay. Ao supostamente perguntar ao escalador neo-zelandês porque queria subir a montanha, este teria respondido “Porque ela está lá”. Anos mais tarde Hillary desmentiu a declaração e disse que esta seria uma bobagem.
No livro “Em busca da Alma de meu pai”, o filho de Tenzing Norgay dá uma explicação de porque os montanhistas desafiam o perigo e colocam suas vidas em risco para chegar a um cume. Apesar do vento, eu sentia a forma tranquila de Miyolangsangma (N.A: divindade budista feminina que protege e mora no monte Everest) erguendo-se graciosamente sobre nós, protegendo-nos a todos. Deitado na barraca, rezando, eu sentia que ela sabia por que razão eu estava ali, ela entendia minha peregrinação. Talvez se desse conta de que eu e os outros que estavam na montanha éramos capazes de uma transformação semelhante à dela e das Cinco Irmãs da Longa Vida, que habitam cinco picos situados num raio de sessenta quilômetros do Everest. Guru Rimpoche as vencera, transformando todas em defensoras da fé budista, e elas agora são vistas como emanações das Cinco Dakinis, as consortes dos Cinco Budas. Elas simbolizam também as essências puras dos cinco elementos - ar, céu, terra, água e fogo.
Uma das razões de as pessoas irem à montanha é a vontade de experimentar a pureza desses elementos - dessas deusas - em sua forma desobstruída. Na montanha, os apegos mundanos são deixados para trás e, na ausência de distrações materiais, abrimo-nos para o pensamento espiritual. Quando contemplamos o oceano, ou olhamos para o céu e para as nuvens, ou até mesmo para o paredão de pedra de uma montanha, nossa mente sente dificuldade em rotular. O que, na verdade, estamos vendo? Não há ali uma coisa real, apenas cor e forma. E quando paramos de dar rótulos ao que vemos, um sentimento de paz preenche esse vácuo, nos levando um passo adiante na compreensão do vazio. Nas escaladas, a presença de espírito necessária em situações de perigo de fato faz com que, naturalmente, alcancemos um estado de total concentração, e é essa concentração que gera a consciência e o sentimento de estarmos plenamente vivos. Cada ação tem significado, porque cada movimento é uma questão de vida ou morte. Conta-se que, quando perguntado porque escalava paredões verticais altos e extremamente difíceis, sozinho e sem cordas, um escalador respondeu: “Isso ajuda minha concentração”. Em certo sentido, qualquer pessoa que de livre e espontânea vontade viaje para a montanha faz uma peregrinação a Miyolangsangma e às outras Cinco Irmãs da Longa Vida. Mas, teoricamente, não deveríamos precisar ir até a montanha para visualizá-las e fazer oferendas a elas. Deveríamos estar sempre tentando levar dentro de nós a experiência da montanha, onde quer que estejamos. Quando voltamos ao ambiente normal, o mundano pode começar a parecer um estado desprovido de sentido. Precisamos voltar para as montanhas para alimentar essa experiência libertadora, porque nossa compreensão ainda depende de paisagens e de acontecimentos externos. Em lugar de deixar que esse estado de presença e consciência totais se desenvolva em nós de forma permanente - e em ambiente mais seguro -, tornamo-nos viciados em circunstâncias e experiências de uma certa qualidade. Na verdade, os budistas sugerem que os escaladores deveriam se concentrar na substância de sua busca - consciência e liberação, e não no ambiente externo que eles acreditam ser necessário para que isso aconteça. (NORGAY, Jamling Tenzing e Couburn, Broughton. Em busca da alma de meu pai: a jornada de um sherpa ao cume do Everest. Tradução Carvalho Zimbres, Patrícia de Queirós. - São Paulo: Companhia das Letras, 2002. pp 228 e 229).
Segunda-feira passada, dia 22, foi celebrada uma missa em homenagem a Vitor em São Paulo. Outra seria realizada em Campinas, cidade natal de Vitor, na quinta-feira, dia 25, na Paróquia Divino Salvador. Foi muito triste ver na televisão a mulher do Vitor junto com os dois bebês. Um amigo meu disse que era uma irresponsabilidade egoísta e uma estupidez uma pessoa se lançar a um desafio perigoso como subir o Everest sem oxigênio suplementar, quando tem uma linda mulher e dois bebês para criar. O alpinismo sempre foi um esporte perigoso. Todas revistas especializadas trazem mensalmente colunas sobre quem passou dessa para melhor. Para Vitor, além de esporte e prazer, o alpinismo era um meio de vida, uma carreira. Todos nós que praticamos atividades de risco sabemos que devemos seguir os rígidos protocolos de segurança. Mas é verdade que quanto mais ficamos experientes nessa atividade, mais vamos negligenciando nossa segurança.
Um policial ou um bombeiro são profissionais que também estão sujeitos a riscos. O que os difere dos alpinistas é que cumprem um papel social. Mas, assim como os verdadeiros policiais e bombeiros, ou outros profissionais que correm riscos, os alpinistas fazem o que fazem por amor e tentam sempre esquecer que estão lidando com a morte. Quando um alpinista vai subir um cume, ele quer voltar vivo. Não podemos culpar Vitor por querer realizar seu sonho.
Deixo aqui minhas condolências e sentimentos para Marina, Leon, Davi, e para os pais de Vitor. Namasté (eu saúdo o que há de divino em você), Vitor.
Boas trilhas, Bulha. |