Hoje em dia é lugar comum dizer que o montanhismo
não é mais o mesmo misto de esporte e exploração
que era antigamente.
Quando Hillary e Norgay chegaram ao cume do Everest, não existia
a tecnologia e a facilidade que existe hoje em dia.
Os chamados “puristas” reclamam que houve uma banalização
do esporte com as expedições comerciais e que já
não existem os desafios de antigamente, já que os principais
cumes do mundo já foram conquistados. Além disso, culpam
as expedições comerciais por uma crescente falta de
ética no esporte. Atualmente, qualquer um com um bom preparo
físico e US$ 60,000.00 pode pagar a empresas para que o levem
até o cume do Everest, ou valores menores para outras montanhas
mais baixas. A Adventure Consultants, cujos vários clientes
e guias morreram na tragédia do Everest em 1996 – entre
eles o seu criador e grande montanhista Rob Hall –, colocou
nessa última temporada (2006) 28 pessoas no cume do Everest,
entre sherpas (carregadores), guias e clientes, inclusive a primeira
brasileira a chegar ao topo do mundo, Ana Elisa Boscarioli. O sirdar
(líder dos carregadores sherpas) Ange Dorjee Sherpa chegou
ao cume pela 11ª vez!
Outras empresas também atingem bons níveis. A Mountain
Madness, cujos alguns clientes e guias também morreram na tragédia
do Everest em 1996, entre eles o seu fundador e exímio montanhista
Scott Fischer, também já colocou 33 clientes no teto
do mundo, desde 1994. O American Alpine Institute leva anualmente
3 guias e 9 clientes para a montanha, além dos seus sherpas.
Esse ano o preço foi de US$ 55,000.00 e ano que vem vai custar
US$ 60,000.00. Isso fora as passagens até Katmandu (Nepal)
e os equipamentos individuais.
Outras empresas menos famosas, como a Asian Trekking, que organizou
a última expedição que incluiu os brasileiros
Victor Negrete e Rodrigo Raineri, que resultou na morte de Victor,
também levam pessoas com pouca experiência e muita grana
para os maiores picos do mundo.
Todas estas empresas também têm programas para levar
montanhistas aos 7 Cumes, ou seja, os cumes mais altos dos 7 continentes:
Everest (8.850 m), Nepal, Ásia; Aconcágua (6.962 m),
Argentina, América do Sul; Kilimanjaro (5.895 m), Tanzânia/Quênia,
África; Elbrus (5.633 m), Rússia, Europa; Pirâmide
Carstenz (4.884 m), Indonésia, Oceania (continente Australasiano);
McKinley, também conhecido como Denali, (6.194 m), EUA (Alaska),
América do Norte; e Maciço Vison (4.897 m) Antártica.
Além destas principais montanhas, diversas empresas de turismo
e escolas de montanhismo levam às mais destacadas montanhas
do mundo, nos Andes, Himalaia, Alpes Europeus, EUA e aonde mais o
cliente quiser ir e puder pagar.
Assim, não é mais preciso ser um expedicionário
aventureiro nato que organiza suas próprias expedições
com as dificuldades logísticas inerentes. Basta ter o dinheiro
no bolso e contratar guias experientes que já sabem os caminhos
de cor. Assim, os críticos do montanhismo comercial dizem que
o montanhismo perdeu seu romantismo ao virar um negócio de
milhares de dólares.
Considerado o maior montanhista de todos os tempos, Reinhold Messner
foi o primeiro a escalar o Everest sozinho sem a ajuda de carregadores
sherpas e oxigênio suplementar. Também foi o primeiro
a escalar os 7 cumes e todas as 14 montanhas com mais de 8.000 m,
as chamadas “eight-thousanders”. Todas sem ajuda de proteções
fixas (dispositivos de segurança que são deixados na
montanha) e sem o uso de oxigênio suplementar.
Messner, grande criador do conceito de escaladores puristas, corrente
hoje em dia liderada pelos editores e leitores da revista americana
Alpinist, entende que subir uma montanha com proteções
fixas e oxigênio suplementar é o equivalente a trapacear
a montanha.
Mas, para eles, passar sem os cilindros de oxigênio ou proteções
fixas não tem nada a haver com a busca de um troféu.
É mais uma declaração filosófica, uma
expressão da capacidade humana levada aos seus limites físicos,
que é, segundo eles, a verdadeira essência do montanhismo.
Pensando friamente, os alpinistas que usam oxigênio suplementar
não estão escalando, e sim reduzindo a montanha em várias
centenas de metros.
Atualmente, desde que Norgay e Hillary “conquistaram”
o Everest em 1953, segundo as últimas estatísticas,
a montanha (chamada de Chomolungma, ou "Deusa mãe do mundo",
em tibetano, e de Sagarmatha, "Cabeça que toca o céu",
em nepalês) foi escalada por 2.557 pessoas, quase a metade delas
nos últimos cinco anos e cerca de 80% delas após 1991.
Assim, percebe-se que com as novas tecnologias e empresas de guias,
realmente houve uma banalização da montanha.
Pouca ou quase nenhuma importância se dá aos sherpas,
os carregadores que sobem e descem a montanha várias vezes
durante cada temporada para montar os acampamentos onde os clientes
vão dormir, para monitorar a colocação das escadas
de alumínio que permitem a travessia do Glaciar (cascata de
gelo) do Khumbu, e que muitas vezes são os responsáveis
por praticamente “carregarem” e serem “babás”
dos clientes, além de resgatarem escaladores feridos ou doentes.
Em vez de 2.557 pessoas, quantos teriam chegado ao topo do Everest
atualmente sem a ajuda dos sherpas e das expedições
guiadas?
O número seria drasticamente reduzido, com certeza.
Há relatos de alpinistas experientes que vêem vários
clientes de expedições comerciais com diversos sinais
de problemas, mas que continuam escalando mesmo assim. Afinal de contas,
uma empresa que cobrou US$ 60,000.00 para levar um cliente ao cume
tenta a todo custo fazê-lo, às vezes esquecendo-se ou
ignorando o horário limite para voltar. No Everest considera-se
o horário de segurança para se chegar ao cume pela rota
da aresta sudoeste, a mais popular, às 13h00. Caso não
se chegue ao cume à essa hora, esteja onde estiver, é
recomendável que se volte, pois há o risco de chegar
ao acampamento abaixo depois de escurecer, o que pode resultar, principalmente,
em perda de orientação na trilha, isso sem contar que
o ataque ao cume e a volta ao acampamento 4 implica em cerca de 50
horas sem dormir e em movimento constante.
Segundo esses relatos, o cansaço e despreparo dos clientes
às vezes são evidentes pela linguagem corporal deles.
Pode-se dizer muita coisa pela maneira como alguém se curva
sobre o piolet ou se pendura numa corda fixa, assim como é
possível perceber o estado de uma pessoa pelo número
de passos que consegue dar antes de parar para descansar e pela energia
e confiança desses passos. |