Pouca ou quase nenhuma importância se dá aos sherpas, os carregadores que sobem e descem a montanha várias vezes durante cada temporada para montar os acampamentos onde os clientes vão dormir, para monitorar a colocação das escadas de alumínio que permitem a travessia do Glaciar (cascata de gelo) do Khumbu, e que muitas vezes são os responsáveis por praticamente “carregarem” e serem “babás” dos clientes, além de resgatarem escaladores feridos ou doentes. Em vez de 2.557 pessoas, quantos teriam chegado ao topo do Everest atualmente sem a ajuda dos sherpas e das expedições guiadas? O número seria drasticamente reduzido, com certeza. Há relatos de alpinistas experientes que vêem vários clientes de expedições comerciais com diversos sinais de problemas, mas que continuam escalando mesmo assim. Afinal de contas, uma empresa que cobrou US$ 60,000.00 para levar um cliente ao cume tenta a todo custo fazê-lo, às vezes esquecendo-se ou ignorando o horário limite para voltar. No Everest considera-se o horário de segurança para se chegar ao cume pela rota da aresta sudoeste, a mais popular, às 13h00. Caso não se chegue ao cume à essa hora, esteja onde estiver, é recomendável que se volte, pois há o risco de chegar ao acampamento abaixo depois de escurecer, o que pode resultar, principalmente, em perda de orientação na trilha, isso sem contar que o ataque ao cume e a volta ao acampamento 4 implica em cerca de 50 horas sem dormir e em movimento constante. Segundo esses relatos, o cansaço e despreparo dos clientes às vezes são evidentes pela linguagem corporal deles. Pode-se dizer muita coisa pela maneira como alguém se curva sobre o piolet ou se pendura numa corda fixa, assim como é possível perceber o estado de uma pessoa pelo número de passos que consegue dar antes de parar para descansar e pela energia e confiança desses passos.
Às vezes, não raro, muitos dos clientes não têm qualquer aprendizado nas montanhas e não dominam nem mesmo as técnicas fundamentais. Talvez já tenham sido guiados ao topo de picos menores, mas ser guiado cria uma mentalidade de criatura guiada. Você não aprende a cuidar de si mesmo. Se alguém me diz que esteve no topo de um pico de 6.700 m, eu vou querer saber da qualidade dessa experiência. Alguma vez precisou saber do paradeiro das suas luvas à noite, debaixo de uma tempestade? Alguma vez teve de encontrar o caminho de volta debaixo de uma nevasca ou de enfrentar um turbilhão de neve sem óculos de proteção? Alguma vez já cozinhou a sua própria comida? Já executou a tarefa básica de montar sua própria barraca, às vezes sob fortes ventos? Em situações extremas, você poderia confiar em si mesmo? Afinal, você é auto-suficiente? É comum, mais do que se pensa, encontrar vários corpos no Everest enquanto se sobe a montanha. Os escaladores tentam não pensar na morte durante a escalada e ninguém quer escalar uma via onde haja pessoas mortas, mas os corpos largados no caminho lembram o escalador dessa possibilidade o tempo todo. Num local como o Everest, onde carregar o próprio corpo já é extremamente difícil, imagine o que será carregar de volta um outro corpo inerte. Existem vários cadáveres no Everest, espalhados desde o acampamento-base avançado até pontos próximos do cume. Há até pouco tempo atrás, centenas de metros abaixo do acampamento-base avançado, havia uma alpinista perto da trilha, embrulhada numa lona azul. E, por anos, até que o vento acabou soprando seus restos para o precipício do flanco do Kangshung, toda expedição ao Everest que escalou essa rota passou por Hannelore Schmatz, um marco esquelético logo acima do colo sul, com seus canelos castanhos ao sabor do vento. |