Há uma obsessão compulsiva que faz com que os escaladores percam a ética na montanha. Aliás, ética é ética em qualquer lugar, não só na montanha. Coletivamente, não estamos sujeitos a nenhum código formal de conduta, mas estamos ligados pela chamada “irmandade da corda”. As tensões de escalar em grandes altitudes acabam por revelar o verdadeiro caráter de uma pessoa: essas tensões arrancam as máscaras e mostram quem você é de fato. Lá em cima não existem mais todas as regras sociais por meio das quais se ocultar, com as quais desempenhar papéis. Você se torna a essência do que é na verdade.É o cúmulo ver um escalador agonizando à beira da morte e não prestar ajuda em troco de chegar ao cume. As pessoas passam às vezes anos se preparando para o Everest e gastam fortunas, e assim não querem ter que dar meia-volta para ajudar alguém, abrindo mão do cume, mas a vida humana é mais importante do que qualquer montanha.
Na última temporada do Everest, um inglês que fazia parte da expedição onde também estavam os brasileiros Victor Negrete e Rodrigo Raineri, chamado David Sharp, foi abandonado à própria sorte. Segundo as denúncias, cerca de 40 montanhistas passaram por ele quando agonizava, e ninguém se ofereceu para ajudar. O neozelandês Edmund Hillary, uma das duas primeiras pessoas a alcançar o pico do Everest, juntamente com Tanzing Norgay, condenou a atitude dos cerca de 40 montanhistas que negaram ajuda ao britânico que morreu por falta de oxigênio. Ele ainda culpou a obsessão de pisar a todo custo no topo do mundo que marca hoje as expedições.
"Minha expedição nunca teria deixado um homem morrer sob uma rocha. Isso nunca ocorreria, seria uma catástrofe", disse Hillary ao jornal New Zealand Herald. Entre os montanhistas que testemunharam os problemas de Sharp estava o neozelandês Mark Inglis, o primeiro homem a subir o Everest com duas pernas artificiais. Ele reconheceu que viu Sharp, mas que as condições o impediram de prestar assistência. A resposta não convenceu Hillary, 87 anos. Ele disse que a razão da atitude é a vontade dos montanhistas de acrescentar o Everest a seu currículo, devido a interesses comerciais. "Eles só querem subir ao pico. Hoje, pouco importa que alguém esteja em perigo. Portanto, não me impressiona alguém morrer debaixo de uma rocha", disse o alpinista pioneiro.
De acordo com um estudo da Universidade de Otago, publicado pelo New Zealand Herald, David Sharp poderia ter sobrevivido se tivesse sido ajudado a tempo com um tanque de oxigênio. Por isso eu considero que um verdadeiro montanhista não é aquele que chega ao cume à qualquer custo. Muitas vezes, esse tipo de montanhista chega ao cume, mas não consegue voltar.
Além da ética humana, que supera a simples educação e cordialidade, é um exemplo a atitude de um escalador consciente das suas limitações e das limitações que eventualmente a montanha impõe e das quais você não tem como lutar contra. Uma estória exemplifica bem isso. Em 1996, a fatídica temporada do Everest, um alpinista sueco chamado Göran Kropp fez uma esplêndida tentativa de chegar ao cume sozinho. Mas, uma hora antes de chegar ao topo, calculando suas reservas de energia com aquela frieza de raciocínio que só se adquire depois de muita experiência em grandes altitudes, Kropp deu meia-volta e desceu. Ele havia pedalado 11.200 quilômetros por toda a Europa e Ásia, sozinho, e escalou 8.690 metros, também sozinho, sem apoio dos sherpas e sem oxigênio suplementar. A uns poucos metros de seu objetivo, fez os cálculos e decidiu: outro dia. Kropp é um exemplo magnífico de autodisciplina e instinto de montanhista. Chegar ao cume é apenas metade de toda e qualquer escalada. Voltar é que são elas – a linha de chegada está lá embaixo, não lá no alto. Durante a descida, estamos mais fracos, cansados, há mais tempo na montanha e por isso mais sujeitos ao mal da altitude e, por tudo isso, mais propensos a acidentes. A decisão de fazer meia-volta nunca é fácil. Mas é uma decisão que honra grandemente a montanha e a própria pessoa.
Feitas essas considerações acerca da banalização do montanhismo e da atual falta de ética generalizada, eu digo que entendo que o montanhismo, apesar de tudo, ainda é um esporte desafiador. Respondendo aos críticos eu digo que ainda há várias possibilidades: escalar sem a ajuda de carregadores, escalar sem oxigênio suplementar e, principalmente, escalar novas vias. Os “puristas” que eu cite, são um bom exemplo de se manter o desafio: sempre escalar num número reduzido de pessoas, com o mínimo de equipamento é uma forma de manter o desafio imaculado. Além disso, escalar sem a ajuda do oxigênio suplementar é uma forma de superação que ainda pode ser feita, principalmente nos 14 picos com mais de 8.000 m que existem no mundo, todos no Himalaia. Novas vias também são um desafio hibernando. Nunca ninguém escalou a rota leste do Everest, pelo flanco do Kangshung.
Alguns poucos tentaram, e o ponto mais alto alcançado foi aos 7.437 m por uma expedição em 1994. Então, como não podem existir novos desafios? Esse é só um exemplo de uma via a ser conquistada, um desafio à espera.
Mas, a resposta definitiva aos que dizem não haver mais desafios no montanhismo é o fato de que das 109 montanhas mais altas do mundo, 6 ainda não foram escaladas, todas com mais de 7.200 m. Para estes críticos, vou dar uma ajudinha e listar os nomes dos picos, com sua altura, colocação no ranking entre os 109 cumes com mais de 7.000 m, e localização:
Gangkhar Puensum – 7.570 m – 40º – Butão/Tibete
Saser Kandri II – 7.495 m – 49º – Cachemira (Índia)
Kabru N – 7.412 m – 65º – Butão/Tibete
Labuche Kang III Leste – 7.250 m – 94º – Tibete
Karjiang – 7.221 m – 100º – Tibete
Tongshaonjiabu – 7.207 m – 103º – Butão/Tibete
Isso sem contar as montanhas com menos de 7.000 m, que podem ser tão ou mais difíceis que qualquer uma.
Definitivamente, o montanhismo é um esporte exploratório com muitos desafios a serem vencidos.
Boas trilhas, Bulha. |