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CIÊNCIA E ARTE NA BRIGA COM O PEIXE - Por: Moacyr Sacramento
PARTE 1 PARTE 2 PARTE 3
Conhecendo o adversário.

PREFÁCIO
Este é o primeiro de uma sequência de artigos, todos com o objetivo de partilhar com os demais pescadores tudo que seja conhecimento que evite perder uma briga com um peixe. Briga sim senhor! Pois alguém conhece algum peixe que queira ser capturado?
Bem... Se o peixe não estiver a fim de colaborar, nos resta nos prepararmos para esta briga. Inicialmente, eu gostaria de explicar os porquês de peixes diferentes brigarem tão diferentemente; isto é importante para sabermos o que esperar de cada adversário, e que material e cuidados devemos ter para evitar deixar que ele nos escape. Na sequência; sugiro técnicas, macetes, materiais e conceitos que evitam que o peixe consiga nos escapar uma vez que ataque a isca; e saia vitorioso desta briga. Não importa qual a sua pescaria; esta sequência de artigos (que juntos formam um só) irá lhe permitir obter resultados muito melhores!

INTRODUÇÃO
Não existe peixe que não brigue, mas existe peixe que não possui os atributos necessários para uma briga hercúlea. Cada peixe tem sua forma de brigar, mas todos brigam. Os principais atributos dos peixes são força e/ou resistência à natação, assim como sua inclinação por saltos e enrosco. Todos estes fatores são diretamente dependentes de: seu formato corporal, sua maneira de se adaptar ao ambiente em que estejam, biologia da espécie, e tamanho do exemplar. A seguir, analiso cada fator separadamente; mas advirto que apenas a apreciação do conjunto dará uma correta visão do quadro, sendo necessário acabar de ler para compreender o quê digo.

LEITURA DAS ÁGUAS
Todo peixe procura uma situação que lhes seja a mais favorável. A identificação destas situações, assim como do risco de perder o peixe fisgado em um enrosco ou loca, são a base daquilo que costuma ser chamado de leitura das águas. Não adianta fazer o peixe atacar a isca se não pudermos tirá-lo da água! Predadores costumam se esconder entre galhadas, vegetação, troncos caídos, tocas em pedras, e tudo o mais lhe lhes ajude a surpreender a presa; isto é, vegetação e tranqueiras, nas margens ou no fundo das águas. Embora sejam estes os locais de enrosco, geralmente são os melhores locais mais promissores para arremessos. Nascentes d’água e entradas na vegetação (como quê recortes nas margens) são os locais favoritos de descanso das maiores feras por sua água limpa (menos barrenta), e muitos predadores usam as margens para encurralar suas presas, que por sua vez evitarão estes locais, preferindo o meio da água ou se esconder na vegetação fechada. No caso dos forrageiros (herbívoros), o principal critério para leitura das águas é onde ele acha sua comida, embora onde ele descanse ou se esconde possa ser importante também. Remansos e poços profundos (onde a água do rio fica rodando lentamente) são locais onde detritos se acumulam e o lodo cresce no fundo, também sendo local de descanso. Aliás, toda concentração de presas tende a atrair os predadores. Em geral, o uso de barco é desejável, já que a leitura das águas frequentemente indica locais inacessíveis da margem; também nos ajudando a evitar enroscos; mas seja discreto para não espantar nossas presas, os peixes.
Não adianta ter o equipamento em dia, a isca certa, o dia quente, e o peixe não achar sua isca. Conhecer o adversário é meio caminho para a vitória! Procure saber tudo sobre o peixe; lendo, e conversando com quem conhece o peixe e o local onde você for pescar.
Cada lugar onde fores pescar, cada espécie, cada técnica representa um novo aprendizado.

TAMANHO
Quanto maior o peixe, mais forte ele será. Tudo o quê digo neste artigo daqui para frente deve ser considerado à luz da proporção entre seu equipamento e o tamanho do peixe; pois um equipamento pesado para um peixe pode ser leve para outro. Os peixes crescem rapidamente até que atinjam sua maturidade reprodutiva; porém, eles têm o atributo de crescerem continuamente mesmo depois de adultos, de forma que seu peso reflete sua idade; mas também devemos considerar a dificuldade que eles encontrem para crescer.
Alevinos são especialmente sensíveis à falta de alimento, comprometendo o tamanho máximo a que poderão chegar quando adultos, é por isso que os peixes de peque-pague são maiores que os de mesma genética em ambiente livre (considerados outros fatores como idade do exemplar, espaço, alimentação balanceada e suficiente). Um peixe que já passou da fase de alevino não costuma encontrar muita dificuldade em se alimentar, mas isso depende também da sua capacidade em se adaptar ao ambiente em que esteja. Por exemplo, a traíra, minha vítima favorita, também é encontrada em rios, mas atinge tamanho menor que uma traíra de açude ou represa; pois ela se adapta melhor a pesca furtiva (surpreende a presa com um bote), e a correnteza obriga o peixe a se movimentar (estraga a surpresa) e evita o acúmulo da vegetação aquática que lhe serve de camuflagem. A idade do peixe interfere, por exemplo; uma traíra de 2 Kg terá o dobro da força de natação de uma traíra de 1 Kg, mas uma traíra de 3 ou 4 Kg, devido à sua avançada idade, poderá ter apenas um pouco mais de força que a de 2 Kg. Peixes adultos crescem em ritmo cada vez menor, precisando de menos comida (proporcionalmente) e sendo mais difíceis de capturar; a isca deve ser irresistível e ser colocada no lugar certo (na cara do peixe), a água deve estar quente. Peixes de locais muito pescados costumam ter selecionados genes de crescimento lento, já que o tamanho do peixe determina se ele vai ser solto quando capturado, se ele vai agarrar na rede, se ele vai conseguir morder o anzol, dando a eles maior sobrevida e mais chances de desovar
(por viverem mais e por começarem a desovar precocemente; embora a qualidade, quantidade, e tamanho dos alevinos possa ser prejudicada; reduzindo a taxa de sobrevivência destes); de forma que eles podem ser mais velhos do que aparentam se julgados por seu tamanho. Genes de crescimento lento determinam ainda que eles não tenham de comer muito para poder crescer e serão menos gulosos, reduzindo sua necessidade de rodar atrás de comida (é quando eles rodam que acabam caindo em redes), ou a probabilidade de encontrar um anzol e julgar sua isca apetitosa.

BIOLOGIA
Correnteza, piracema, funcionam como educação física, preparando grandes oponentes. Alguém aí já viu o dourado, o famoso rei do rio, em pesque-pague? Resiste à briga por menos tempo que uma traíra de mesmo tamanho e situação (a qual se torna mais resistente quando encontrada em rios); e digo mais, a traíra é significativamente mais forte que o dourado (muito mais forte se o dourado for de pesque-pague). Qualquer peixe de correnteza ou piracema tende a engordar com a falta de atividade física proporcionada pela prisão de um pesque-pague; mas nenhum peixe sente mais que o Elvis, melhor dizendo, sua alteza-real o dourado. Em ambiente natural, de rios e corredeiras; o dourado de água doce confia na sua extraordinária capacidade de nadar, por isso ele prefere corredeiras, onde suas presas estarão se esforçando em nadar. Ele fica atrás de pedras, nas corredeiras, esperando ver algum peixe que passe por ele. Devido a esta constante educação física, o dourado é, sem dúvida, o melhor preparado para uma boa briga; ele é capaz de saltar uma queda d’água de 5 metros com um pulo (o que foi observado na piracema). Sua alteza merece seu título por seus saltos, força e resistência. Quando cansado, ele pode procurar tocas nas pedras ou enrosco, tenha cuidado. Peixes como o robalo, a bicuda, e o matrinchã merecem menção honrosa; seus temperamentos agitados os tornam resistentes, pois estão acostumados a nadar continuamente e com velocidade considerável. Seus temperamentos ainda os tornam propensos a saltar quando jovem, e/ou a entocar quando grande (o uso do líder evitará que a linha seja cortada em pedras). Peixes de piracema, aqueles que sobem o rio para desovar, possuem resistência física para dar uma longa briga, por vezes tendo a tendência de saltar (quando eles saltam cachoeiras para chegar ao local de desova). Peixes que vivem na correnteza, as presas, os pequenos e/ou jovens, e os peixes de piracema são os mais propensos a saltar, mas isso não é uma regra rígida.
Outro fator é se o peixe é presa, predador, ou nenhum dos dois. A presa está sempre pronta a nadar pela vida, geralmente sendo de formato achatado lateralmente (discóide ou parecido); estes peixes podem parecer incansáveis. Um predador, tipicamente de formato cilíndrico, está habituado a explosões (sair da imobilidade e alcançar grande velocidade em tempo exíguo, eles são fortes como um corredor dos 100 metros rasos), mas ele se cansa mais facilmente por não estar habituado a nadar pela vida. Aquele que não tem de nadar para comer ou para não ser comido, por ter algum tipo de defesa, são os oponentes mais fáceis. Defesas como ferrões, veneno, ou esconderijos podem fazer seu portador se tornar letárgico; ele não precisa correr para escapar de predadores. Bagres, arraias, moréia, e outros; não estão acostumados a ter de nadar por sua vida, tendo pouca condição de resistir quando são puxados para fora d’água. O peixe-ganso (aquele que tem um apêndice na testa o qual serve de isca) , venenoso; dá uma bocada, com que suga a presa, de 80 ou até 130 Km/h ( vi no Discovery Channel ), mas seu nado é desengonçado. Dentre os peixes de água doce que possuem defesas, apenas um bagre é capaz de dar trabalho, mas só se for muito grande. Embora os bagres não sejam grandes oponentes, quando grandes podem dar uma longa briga, pois a maior parte deles são peixes de piracema, estando acostumados a nadar grandes distâncias, especialmente os que vivem em lugares correntosos. Todo bagre, especialmente os jovens, possui capacidade predatória; o que resulta em um comportamento misto, muita força no começo e resistência no decorrer da briga. Cuidado; todos os bagres, as arraias, e alguns outros peixes gostam de colar no fundo para evitar serem arrastados (é só ter paciência e trazer aos poucos). A ilustração seguinte foi retirada do livro: Fisiologia Animal.
Adaptação e Meio Ambiente, páginas 18 e 19; Livraria-Editora Santos, 5ª Edição, 2002; e foi reproduzida com permissão da editora.





O número depois de cada nome indica a superfície total das brânquias, expressa em unidades arbitrárias por grama de peso corpóreo do peixe (I.E. Gray, baseado em Gray, 1954). Em outras palavras; peixes extremamente ativos, que nadam rápida e continuamente, têm maior capacidade de absorver e usar oxigênio que peixes lentos que vivem no fundo; de tal forma que estes números refletem a resistência que cada peixe terá depois de ferroado. Um detalhe a ser observado é que os peixes pelágicos (que vivem na coluna d’água), os quais nadam continuamente, possuem aparelhos bucais mais simples; dependendo da natação para que a água circule por suas guelras.
Peixes lentos podem bombear a água por suas brânquias com movimentos combinados da boca e opérculos (a tampa das brânquias).
O formato e cores dos peixes nos contam sobre quem são: Bocas grandes e dentadas indicam predadores. Corpo alongado indica que frequentam lugares estreitos como tocas ou vegetação fechada (sarapó, moréia, enguia). Os de corpo cilíndrico são caçadores furtivos (espreitam a presa e dão o bote, só sendo percebidos tarde demais; traíra, trairão, surubim). Formato intermediário pode indicar que o predador corre atrás da presa, rápidos, mas com alguma resistência (tucunaré, robalo); ou uma presa que frequenta local com correnteza (piau). Corpo achatado lateralmente, nadadores resistentes (tambaqui, pacu). Cores claras, diurnos (dourado de água doce, piau, tucunaré e robalo); escuros, noturnos (traíra, sarapó); marrom, se enterram na lama (bagres) ou ficam entre as raízes da vegetação (sarapó); prateados, pelágicos (vivem na coluna d’água: lambari).

Curiosidade: acredita-se que o desenho de um olho e a cor amarela característica do tucunaré sirva para evitar o canibalismo, então sendo assumida precocemente pelos exemplares jovens (adicionalmente, o olho serve para que predadores do tucunaré não saibam qual é sua frente; e assim eles não saberão para que lado o tucunaré vai nadar ao fugir). Outros peixes fisicamente semelhantes, como jovens piranhas; parecem simular o tom amarelo para evitar serem predados por tucunarés. Esta hipótese foi publicada em: ZARET, T.M. Inhibition of cannibalism in Cichla ocellaris and hypothesis of predator mimicry among South American fishes. Evolution, 31(2):421-437, 1977.
Poder-se-ia pensar o mesmo das cores de um dourado, com seu desenho caudal característico; e de um jovem tambaquí (imitando o dourado), uma piracanjuba, uma tabarana; o desenho caudal é, aparentemente, o maior determinante deste reconhecimento.
Portanto, as iscas para estes peixes devem, necessariamente, ter uma cor diferente ou, ao menos, um desenho caudal claramente diverso (no caso do tucunaré, o desenho de um olho; no caso do dourado, a faixa preta na cauda vermelha).

Concluindo; o estilo de vida do peixe é o principal fator, além do tamanho, que determina sua capacidade de brigar, isto é; sua força e sua resistência quando estiver brigando. O estilo de vida também nos indica se ele pula ou gosta de enrosco. O quê o peixe faz quando fisgado pouco difere do quê ele está acostumado a fazer no seu cotidiano.

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