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CANIONISMO
Texto: Rodrigo Bulhões
É muito comum dizer-se que se está fazendo um ”rappel” na cachoeira. Usar o termo rappel para designar um descida em corda fixa, seja em cachoeira ou não, é no mínimo, uma impropriedade. O termo “rappel” vem de uma palavra da língua francesa e serve, na prática desportiva, para designar uma técnica de descida em corda muito utilizada na escalada. O termo em francês quer dizer algo como “chamamento”, “fazer voltar”, ou “retornar”. Em escalada, quando se sobe uma parede muito alta, de 500 m por exemplo, não se usa uma corda de 500 m. Usa-se uma corda menor e mais leve, digamos, de 50 m. Depois de subir 50 m, o escalador puxa a corda e continua utilizando-a como segurança até chegar ao topo. Na hora de descer, ele dobra a corda na ancoragem e desce um trecho de 25 m (metade da corda, pois ela está dobrada) em corda dupla e recolhe a corda para continuar a descer daquele ponto. Esse ato de recolher a corda é que consiste na técnica de rappel. Assim, dizer que se “pratica rappel” seria tão estúpido quanto se dizer que se “pratica pênalti”, como diz uma amiga minha. O ato de descer por uma corda fixa numa cachoeira na verdade se chama cascading ou cachoeirismo, e não tem nada a haver com o termo rappel. No entanto, o rappel é uma técnica muito utilizada no canionismo, apesar de ser usada sempre em última instância, quando não houver outra forma de descer o obstáculo ou queda d’água. Quando nos deparamos com uma queda d’água podemos saltar, desescalar, descer por um tobogã natural, ou descê-la em corda. Nunca se salta em um poço sem antes averiguar se a profundidade é suficiente para o salto, ou se não há no fundo detritos que possam machucar o praticante. Mas, quando não há outra opção a não ser por corda, utilizamos a técnica de rappel, pois não podemos deixar as cordas dentro do cânion, temos que recolhê-la para continuar a progressão, pois certamente haverá outras cachoeira dentro do cânion. Por isso é que em cânions utilizamos a técnica de rappel, mas quem fixa a corda em cima de uma cachoeira para descê-la várias vezes não utiliza essa técnica. Assim, espero que todos tenham entendido que rappel é uma técnica de escalada utilizada em canionismo, e não um esporte propriamente dito.
A prática de canionismo requer treinamento e equipamentos específicos. Raramente são utilizadas embarcações.
Quando isso é feito, geralmente é em função de um cânion demandar que se carregue muitos equipamentos em um trecho aquático longo. Normalmente os trechos aquáticos são vencidos a nado, por isso o canionista tem que saber nadar bem.
Apesar de alguns cânions largos, como Grand Canyon, permitirem a descida em barcos de rafting essa prática não será chamada de canionismo, mas sim de rafting. Entre os equipamentos utilizados estão os coletivos, de uso comum de todos os praticantes, e os individuais, obrigatórios para cada canionista. Os equipamentos coletivos são cordas estáticas, mosquetões de formatos variados, anéis de fita e corda para ancoragens, equipamentos de ancoragem artificial, caixa de primeiros socorros e recipiente estanque (não permitem a entrada de água). Os individuais são descensor (freio) tipo “oito”, mosquetão HMS, mosquetões sobressalentes, capacete, mochila com orifícios para escoamento de água, roupa de neoprene, calçados com solas aderentes, longe duplo (sistema de segurança), cadeirinha, faca e apito. As cordas têm que ser estáticas porque têm baixa elasticidade, diminuindo o efeito “iô-iô”.
As cordas dinâmicas utilizadas em escalada servem para absorverem o impacto de eventuais quedas. Como isso não ocorre em canionismo, pois não estamos subindo, estamos sempre descendo, não há sentido em usar cordas dinâmicas. Os mosquetões tem várias funções em ancoragens e como auxiliares para aumentar o atrito dos descensores, além de serem versáteis em várias situações. Anéis de fita e corda são utilizados em ancoragens, assim como s equipamentos de ancoragem artificial, que ficam presos à rocha e demandam certo esforço e tempo para serem instalados. Mas, uma vez fixados, duram muito tempo.
A caixa de primeiros socorros é importante em qualquer atividade esportiva no agreste. A caixa estanque, ou “bidón” é necessária para levarmos comida e outros objetos que não possam molhar. O descensor, ou freio, utilizado no canionismo é o chamado “freio oito”, que leva esse nome por ter o formato do algarismo oito. A forma de passar a corda dentro desse freio faz com que um atrito entre eles controle a velocidade de descida. A cadeirinha, que é um tipo de cinto que envolve também as pernas, serve para sustentar o canionista e ligá-lo á corda através do freio oito, que é preso na cadeirinha através de um mosquetão chamado HMS. A cadeirinha pode ser de escalada, de espeleologia ou de canionismo, mas as mais recomendadas são de espeleologia e de canionismo.
O capacete é importante para proteger contra a queda de objetos. A roupa de neoprene deverá ter uma grossura compatível com a temperatura da água. Geralmente faz muito frio dentro de cânions e a roupa de nenoprene é necessária para evitar a hipotermia, diminuição excessiva da temperatura do corpo. O longe duplo é um sistema que consiste em um pedaço de corda dinâmica preso à cadeirinha de onde saem duas extremidades, uma curta do tamanho do antebraço e outra longa, do tamanho do braço esticado. Servem como segurança no caso de uma passada errada no freio oito ou em uma eventual queda quando ainda não se passou o freio na corda.
Os calçados devem ser bem escolhidos, pois as pedras molhadas dos cânions costumam ser bastante escorregadias.
Nas mochilas são levadas a corda principal e cordas reserva, assim com o recipiente estanque. Mosquetões são sempre úteis no caso da perda de um freio ou em ancoragens. A faca é importante para se cortar uma corda em caso de emergência, e o apito serve para comunicação em código, pois é muito difícil escutar alguém gritando sob a torrente de uma cachoeira.
Além das técnicas verticais em corda, é necessário um conhecimento de hidrologia para saber progredir em rios caudalosos. Redemoinhos, refluxos e marmitas são eventos hidrológicos que podem causar dificuldades aos canionistas menos experientes. Para falar a verdade, o maior risco de vida nos cânions está na progressão aquática, e não na descida em corda.
Por isso que um outro equipamento coletivo obrigatório é uma corda de resgate daquelas utilizadas em canoagem de águas bravas. Boas trilhas, Bulha.
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