Outro dia eu estava lendo uma
matéria no site GreatOutdoors.com e li um relato do montanhista
Doug Gantenbain contando que há 22 anos atrás, ele e
dois amigos escalaram os 3.572 m do Monte Hood, o mais alto do estado
do Oregon, nos EUA, e ele usou o timer da câmera fotográfica
para tirar uma foto da turma no cume, sob um brilhante céu.
Brilhante céu, ele disse?
No dia seguinte, ele conta, acordou com o rosto parecendo com uma
lagosta cozida. Depois vieram as bolhas e aquela aparência reptiliana
de pele descascando. Ele finaliza o parágrafo dizendo que até
hoje ele teme que em algum ponto daquela viagem as sementes do câncer
de pele tenham sido plantadas nas bochechas dele. Naquela época
já se sabia, mas pouco era divulgado ao público em geral,
sobre a exposição ao sol e sua relação
com o câncer de pele. Eu mesmo me lembro de ter pele descascando
por exposição ao sol durante várias vezes na
minha infância e adolescência. Como conseqüência,
hoje tenho muitas pintas pelo corpo, apesar disso ser facilitado pelo
meu biotipo.
Hoje em dia ainda há dúvidas se os protetores solares
podem realmente reduzir as chances de contrair câncer de pele.
Mas porque arriscar? Usar um bom protetor solar e mudar um pouco seus
hábitos pode, na melhor das hipóteses, impedir aquela
sensação desagradável da queimadura solar que
pode até arruinar seu passeio ou viagem, e na pior das hipóteses
pode evitar te causar problemas mais sérios mais adiante.
Existem dois tipos de raios UV (ultra-violetas), que são transmitidos
pelo sol e danificam a nossa pele. O UVA, que penetra mais profundamente
e é o maior responsável pelo envelhecimento da pele;
e o UVB, que penetra menos, mas é o causador de manchas e do
câncer de pele.
Sem dúvida, os protetores solares atuais revelam
um aprimoramento surpreendente em relação àquelas
misturas de óxido de zinco que deixavam os esquiadores, surfistas
e montanhistas com cara de palhaço anos atrás. Hoje
em dia, todos os protetores solares são feitos com PABA (sigla
em inglês para ácido para-aminobenzoico), um ingrediente
que é mais efetivo como bloqueador solar, apesar de poder
causar reações cutâneas em algumas poucas pessoas.
Ainda existe uma divisão entre os protetores cosméticos
e os protetores físicos.
A vantagem dos protetores cosméticos é que eles não
aparecem quando passamos na pele. Os protetores físicos são
aqueles do tipo maquiagem de palhaço, mas que são
úteis porque você pode avaliar visualmente quando é
necessário passá-lo novamente.
Apesar de qualquer protetor solar ser melhor do que nenhum, algumas
orientações vão garantir que seu protetor solar
faça o que você espera dele.
Algumas regras:
Os protetores solares são classificados em escala numérica,
normalmente entre 10 e 40, variando de 5 em 5, mas existem os mais
baixos para peles escuras. Este número quantifica o FPS (fator
de proteção solar). Um protetor solar que indique
FPS 15, por exemplo, quer dizer que em 150 minutos de exposição
ao sol você receberá os mesmos efeitos de uma exposição
por dez minutos sem o protetor.
Um FPS 15 é o ideal para a maioria das pessoas na maior parte
das situações de exposição. No entanto,
pessoas com peles sensíveis ao sol devem usar um protetor
com um FPS mais elevado.
Isso também ocorre em alta montanha. Em altitudes
elevadas, o ar mais rarefeito que filtra pouco os raios solares,
e a refletividade do gelo e da neve (que também ocorre perto
dos pólos e nos pólos propriamente ditos) aumentam
a incidência dos raios UV que atingem a sua pele.
É ainda pior em montanhas altas que ficam mais perto da linha
do Equador, como os Andes equatorianos e peruanos. Nestes casos
um número mais elevado será melhor. Mas, se você
não tiver a pele muito clara, provavelmente estará
jogando dinheiro fora com protetores com FPS acima de 30, pois o
benefício adicional é mínimo na prática.
Como eu disse, FPS 30 é recomendável para pessoas
com pele sensível ao sol ou bebês. E ainda, colocar
duas camadas de FPS 15 não vai ter o efeito de um FPS 30.
O buraco na camada de ozônio se localiza entre
a Antártida e o sul da Patagônia. Portanto, se for
para essa região, tome cuidado redobrado com sua exposição
ao sol, assim como em alta montanha. Nesses casos o FPS 30 é
o recomendado.
Aplique o protetor solar o quanto antes. O ideal
é que se aplique o protetor 15 minutos antes da exposição
ao sol. Para hikers e trekkers (caminhantes em geral), significa
passar o protetor antes de sair da barraca, do campo ou acantonamento.
Aplique bastante, cobrindo toda pele que ficar exposta, não
se esquecendo de locais como orelhas e pescoço.
Se você estiver em neve, gelo ou alta montanha, aplique também
dentro do nariz. Pode parecer estranho, mas hikers em locais nevados
podem ficar com queimaduras dentro das narinas por causa da reflexão
do sol na neve branca, que redireciona os raios de baixo para cima.
Use protetor sempre. Alguns protetores anunciam a
capacidade de proteção por todo o dia.
E protetores solares chamados esportivos são bem eficientes
em resistir ao suor ou durante natação. Mesmo assim,
ainda é bom reaplicar o protetor pelo menos uma vez durante
o dia, de preferência no começo da tarde, quando o
sol está no seu auge. Na verdade, a maioria dos dermatologistas
recomenda que se reaplique o protetor de duas em duas horas.
Apesar de calças, camisas com mangas compridas
e bonés tipo legionário ajudarem a reduzir as queimaduras
solares, eles não são à prova de sol. Se você
estiver usando roupas muito leves, também é bom passar
o protetor no corpo todo. Como diz um amigo meu, “o que abunda
não prejudica”.
Muita atenção se dá à
pele hoje em dia, e esquecemos dos olhos. Devemos usar óculos
escuros com lentes que também protejam os olhos dos raios
UV. Mesmo para andar pelas nossas redondezas, não adianta
comprar um par de óculos baratos na Feira do Paraguai ou
num camelô da Rodoviária.
Em alta montanha os óculos escuros são
tão importantes que se recomenda que se leve pelo menos um
par de reserva para cada dois montanhistas, se não um pra
cada, pois perder os óculos escuros num ambiente desses pode
causar a famosa cegueira causada pela neve, ou snow blindness, uma
condição dolorosa causada por exposição
dos olhos desprotegidos aos raios solares refletidos na neve.
Os inuits (esquimós) usam uma máscara
de couro de caribú (tipo de alce da região) num formato
curvo para se ajustar ao rosto, com uma abertura fina de ponta a
ponta para permitir a entrada do mínimo de luz. Já
li um relato de um corredor de corrida de aventura que perdeu seus
óculos numa montanha gelada e fez uma máscara dessas
com duct-tape (conhecida aqui no Brasil como silver-tape, um tipo
de fita adesiva de cor prateada e altamente resistente).
Um bom par de óculos, ou máscara de
montanhismo e esqui de alta montanha deverá ter absorção
de 99% a 100% dos raios UV, através de lentes de policarbonato,
preferencialmente. Além disso, precisam ser lentes grandes
que protejam bem os olhos e os óculos ou máscaras
devem cobrir também a lateral dos olhos.
E os carecas não se esqueçam da cabeça.
Eu mesmo, quando estive a última vez nos Andes, passei a
máquina zero na cabeça para evitar ter que cortar
o cabelo nos 35 dias de viagem. Depois da primeira trilha de aclimatação,
num sol equatoriano entre 3.450 e 3.900 m, fiquei com a careca descascando...
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