DOCERRADO.com
CUIDADOS COM A PELE
Texto: Rodrigo Bulhões
E os carecas não se esqueçam da cabeça. Eu mesmo, quando estive a última vez nos Andes, passei a máquina zero na cabeça para evitar ter que cortar o cabelo nos 35 dias de viagem. Depois da primeira trilha de aclimatação, num sol equatoriano entre 3.450 e 3.900 m, fiquei com a careca descascando.
Pessoas com a pele clara na verdade não deveriam botar o nariz na rua sem passar protetor solar. Eu tenho muitas amigas de pele branquinha que não tem esse hábito e acabam ficando com a pele meio amarelada. Portanto, se não passar protetor solar pela sua saúde, passe pelo menos pela sua vaidade. Na verdade, sem exagero, usar o protetor solar deveria ser um hábito tão corriqueiro quanto escovar os dentes. Na Austrália, onde o número de pessoas de pele clara expostas ao sol é grande, existe uma campanha publicitária do governo há muito tempo chamada de “Slip, Slop, Slap”, onde slip que dizer camiseta, slop quer dizer passar o protetor solar e slap colocar um boné. Pessoas de peles mais escuras produzem mais melanina, pigmento responsável pela cor e que funciona como um filtro. Com isso, elas têm menos chances de desenvolver o envelhecimento precoce, ou até mesmo um câncer de pele. Mas isso não quer dizer que elas não precisam de proteção, pelo contrário. Com a grande produção de melanina as manchas podem aparecer com mais facilidade. Por isso, o protetor solar é muito importante para qualquer tipo e tonalidade de pele. Não se esqueçam de Bob Marley, que, apesar de ser negro, morreu de câncer de pele. O fato do pai dele ser branco parece ter alguma influência. A verdade é que ele tinha uma ferida embaixo da unha do dedão do pé que ele supunha tinha sido causada em um jogo de futebol. Durante uma outra partida, a unha caiu e ele foi ao médico, que disse se tratar de um melanoma maligno. Os médicos recomendaram a amputação do dedão, mas como a religião rastafari não permite uma coisa dessas, ele resistiu e o câncer acabou se espalhando pelo pulmão, estômago e cérebro. Ou seja, não é brincadeira.

A seguir a tabela recomendada pelos dermatologistas (tonalidade de pele e FPS ideal):
Negra – FPS 2 e 4
Morena-escura – FPS 8
Morena-clara – FPS 15
Clara – FPS 20
Muito clara – FPS 30

Repelentes => Sempre que formos ao agreste vamos nos deparar com mosquitos, pernilongos, borrachudos, mutucas (mate ou morra!), carrapatos, micuins e outros insetos irritantes. Para evitá-los temos que usar repelente. O princípio ativo da maioria dos repelentes é uma substância chamada DEET (dietil meta-toluamida). Entre mais de vinte mil outras substâncias testadas, nenhuma superou o DEET como o repelente mais eficiente, o mais seguro, e também o mais estudado do ponto de vista médico. Sua toxicidade é praticamente nula. Sua absorção pela pele é pequena, e é logo metabolizado pelo fígado e excretado pela urina nas 12 horas seguintes. A concentração ideal de DEET num repelente é de 35% a 50%. Protege por muito tempo e não precisa ser reaplicado antes de 5 ou 6 horas. Concentrações acima disso aparentemente não aumentam o efeito. E concentrações abaixo de 10% são geralmente consideradas muito fracas. Os repelentes nacionais mais populares, Autan e Off, tem concentrações entre 6% e 9%, nem uma fração do ideal, e nem mesmo indicam a quantidade da substância no rótulo. Mas podem ser indicados para crianças. O único repelente comercial de venda nacional que eu conheço que tem uma concentração boa de DEET é o de origem francesa Exposis (www.exposis.com.br), fabricado no Brasil pelo laboratório Osley, que tem 50% de DEET. Protetores solares com repelentes ou vice-versa, ou ainda aplicações simultâneas não são recomendados porque um diminui a eficiência do outro. O ideal é usar primeiro o protetor solar, que é absorvido pela pele, e 15 minutos depois passar o repelente, que tem uma ação diferenciada, causando uma evaporação na pele que mantêm os insetos afastados. Em rios, evite se besuntar antes de nadar, pois poderá provocar poluição. A forma ideal de se passar o repelente é passá-lo nas mãos e em seguida passar no corpo. Após passar, lave as mãos para evitar o contato com as mucosas. No rosto, passe principalmente nas têmporas, mas tenha cuidado para não atingir os olhos, boca e nariz. Nas crianças, não deixe que elas mesmas passem, pois podem levar as mãos à boca ou olhos; o ideal é que você mesmo passe nelas. O repelente não tem um efeito muito bom quando jogado nas roupas, pois, como eu disse, o repelente precisa entrar em contato com a pele para causar a evaporação que afasta os insetos. Porém, é recomendável passar nas mangas das camisas e na bainha das calças, locais por onde os carrapatos e micuins costumam entrar, principalmente se você estiver em trilhas onde passem cavalos ou bois, animais que atraem estes insetos, situação muito comum aqui perto de Brasília e no estado de Goiás. Outra recomendação é cobrir a bainha da calça com as meias, dificultando ainda mais a entrada de carrapatos e micuins. No entanto, mutucas podem ferroar através das leves calças de supplex usadas em caminhadas, portanto aplique abaixo da roupa também. O DEET tem um efeito abrasivo nos plásticos. Descobri isso depois que guardei um radiocomunicador junto com o repelente e ele vazou. Por isso, evite que o repelente entre em contato com plásticos e produtos valiosos como GPS e câmeras digitais, além de, claro, utensílios de cozinha e alimentos.

Os insetos são atraídos pelo CO2 e ácido lático emitido pelo nosso corpo, além de outros estímulos visuais (roupas escuras e movimento), olfativos (odores florais de sabonetes, xampus e loções) e térmicos. Já está provado que a ingestão de vitamina B ou alho não é eficiente para afastar os insetos. Entre os repelentes naturais o mais recomendado é o óleo de citronela, mas o DEET é mais eficiente. Insetos como abelhas, marimbondos e vespas fazem ataques muito rápidos individualmente e parecem não sofrer muito do efeito do DEET, portanto cuidado. De qualquer forma, a maioria destes insetos só te ataca quando a colméia é ameaçada, ou quando você mata um deles ou toca neles. Os feromônios exalados junto com o suor atraem principalmente as abelhas. Uma vez, participei de uma expedição onde a ONG Berço das Águas (www.bercodasaguas.org.br), da qual eu faço parte, estava mapeando um caminho a pé ligando São João D’Aliança a Alto Paraíso (e de Alto Paraíso a Cavalcante) com a intenção de usar o turismo ecológico e de aventura como estratégia de desenvolvimento sustentável para a região. Esse projeto ainda está em desenvolvimento. Na manhã do segundo dia, quando tínhamos acampado num campo selvagem (sem infra-estrutura), acordei e vi um monte de abelhas em volta da minha mochila, boné e camisa, que eu tinha deixado do lado de fora da barraca para secar o suor. Nessas situações não há nada o que fazer. Eu vesti a roupa e mochila tomando cuidado para não assustar as abelhas. Cerca de trezentos metros após o início da caminhada elas pararam de me perseguir, pois essa parece ser a distância máxima que elas mantêm da colméia. Seja paciente. Quanto à irritação da pele causada pela mordida dos insetos, use uma compressa morna ou quente, mas não tão quente a ponto de queimar a pele. Outra solução, principalmente em casos de insetos venenosos, é tomar um anti-histamínico, como 10 mg de Claritin por dia, ou uma pomada corticosteróide, como Nerisona. Mas, se você for atleta e estiver sujeito a exames de dopping, esse tipo de pomada não é recomendado, pois deixa rastro de esteróides. Outra opção é o Polaramine, em comprimidos ou pomada, mas, ATENÇÃO, antes fale com seu médico para saber se você pode tomar algum destes medicamentos. Boas trilhas, Bulha.
PARTE 1 PARTE 2
> INÍCIO > DICAS > CUIDADOS COM A PELE - PARTE 2