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TÉCNICAS DE PROGRESSÃO EM TREKKING
Texto: Rodrigo Bulhões
Bastões de caminhada => Um dia eu estava indo para as cachoeiras de Almécegas, perto de Alto Paraíso, usando um par de bastões de caminhada. Um menino me viu e riu da minha cara: “- Vai esquiar, tio?” De certa forma ele estava certo. Os bastões de caminhada devem ser usados como bastões de esqui: o bastão da mão esquerda deve acompanhar o pé direito, e o bastão da mão direita deve acompanhar o movimento do pé esquerdo. No começo é difícil manter a coordenação, mas com cinco minutos de treino você já pega a manha. Os bastões são importantes principalmente quando você está carregando muito peso, ou mesmo se você está acima do seu peso ideal. Quando carregamos mochilas pesadas, a cada passo que damos infligimos um peso maior que o comum nas articulações dos joelhos e tornozelos, principalmente nas descidas. Com os bastões de caminhada, o peso nas articulações diminui 30 %, o que não é pouco.Os bastões são tubulares e com duas ou três etapas. Os mais comuns são os de três etapas. Na hora de regular a altura, observe duas coisas importantes: seu antebraço deverá ficar em ângulo reto em relação ao seu corpo; e a etapa de baixo do bastão não poderá ficar muito para fora, o que facilitaria essa parte mais fina do bastão se dobrar com o seu peso em alguma situação crítica ou de emergência. Se você estiver subindo, os bastões deverão ser regulados mais curtos, mas, nas subidas, geralmente os bastões são dispensáveis: apesar de ajudar, o esforço do braço não substitui o esforço das pernas. Se estiver descendo, os bastões deverão estar um pouco mais longos; se você estiver num plano inclinado, um bastão deverá ficar mais curto e o outro que ficar do lado externo, mais longo. No entanto, em certos tipos de terrenos muito pedregosos, como nas subidas ou descidas de rios, ou mesmo em locais com escadarias de pedras, é melhor usar só um bastão para manter o equilíbrio, ou guardar os dois na mochila. De qualquer forma, em terreno limpo, livre de pedras, você vai perceber que com os bastões você andará ainda mais rápido. Os bastões também são muito práticos em travessias de rios, para verificar a profundidade, para nos apoiarmos na margem oposta, para nos dar equilíbrio, como eu já disse, ou para segurarmos perpendiculares ao nosso corpo quando estivermos atravessando em duplas ou em grupo.

Escalaminhadas => Existem certos pontos de uma caminhada em que podemos nos deparar com a famosa “escalaminhada”, que não chega a ser uma escalada, mas que desanima muita gente. Na minha opinião, a parte mais difícil não é “escalaminhar”, mas sim “desescalaminhar”. Para subir ou descer, busque sempre ter pelo menos três apoios permanentes, ou seja, quando estiver movendo uma das pernas, tenha certeza de que a outra perna e os braços estão firmes, e assim por diante. Para descer, nunca desça de costas para o rochedo, mas sim de frente. Descer de costas parece ser mais fácil, pois você tem a sensação de enxergar melhor aonde vai, mas você terá menos apoio e agarras, e vai ser muito mais fácil escorregar.

O passo da gueixa e a descida em zigue-zague => Essas técnicas, na minha opinião, são as mais importantes no trekking. O “passo da gueixa”, ou “o passo da japonezinha” é a mais importante técnica de progressão em subidas. Quando estiver numa subida, não se iluda em dar passos longos. É muito comum vermos as pessoas dando esses passos longos e lentos nas trilhas de subida, fazendo um tremendo esforço a cada passo. Isso seria equivalente a subir uma escada a cada dois ou três degraus. Dessa forma, há um desgaste excessivo nos músculos da coxa e da panturrilha, e você acaba parando mais para descansar, e provavelmente chegará lá em cima meio quebrado. Em contrapartida, lembre-se de algum desenho animado onde você viu uma japonezinha andando: ela anda com os pés se mexendo rapidinho e dando passos curtinhos. Lembra de algum? Numa subida, ande pé-ante-pé. Às vezes, dependendo do peso que estou carregando ou do grau de inclinação da subida, dou um passo de meio pé de distância, e ando constantemente, concentrado no ritmo, me desgastando muito pouco. Pode parecer absurdo, mas você poderá até chegar na frente de quem dá passos longos, e com certeza chegará muito mais inteiro, enquanto aquele que der passos longos vai ficar com o músculo da parte de cima da coxa dolorido. Na descida, principalmente as íngremes cheias de pedriscos soltos, a melhor técnica é a descida em zigue-zague. Comece dando o primeiro passo posicionando um dos pés de lado em relação à trilha abaixo, com o corpo de lado e o outro pé acima (zigue). Depois de colocar o segundo pé junto ao primeiro, vire o corpo (zague) e faça o mesmo com o outro pé. Depois de um tempo, você vai ter muito mais desenvoltura e vai perceber que essa técnica fica melhor se você andar mais rápido. Mas lembre-se: subir é mais cansativo, mas nas descidas é muito mais fácil escorregar e se machucar, além de ser mais agressivo para as articulações.

Descanso => Durante a caminhada é interessante parar a cada 30 ou 60 minutos para dar um tempo ao quadril e às pernas, beber água, tirar fotos, comer alguma coisa, ou recuperar o fôlego. Quando parar, tire a mochila para dar um descanso às costas e quadris. Para tirar e colocar a mochila procure uma rocha par apóia-la. Ou então apóie a mochila nos joelhos. Numa subida mais dura não há nada errado em parar com mais frequência.
Finalizando, gostaria de dizer que o ritmo da caminhada sempre é imposto pela pessoa mais lenta. Se você está com um bom preparo físico e sabe o caminho, não dispare na frente de todo mundo. No máximo você vai chegar dez ou vinte minutos na frente dos outros e vai, certamente, deixar a pessoa mais fraca frustrada, desanimada e mais desgastada, principalmente se ela tentar seguir seu ritmo. Você poderá estar contribuindo para que essa pessoa se sinta tão mal a ponto de não querer fazer mais trilhas, situação com a qual eu já me deparei. Existem trilhas em que você precisa cumprir um tempo pré-estabelecido para não chegar sem luz do dia, ou em casos de alta montanha, onde o tempo perdido é valioso. Se você vai fazer um tipo de trilha que sabe que é necessária uma boa performance, não chame ninguém que não tem o preparo físico compatível. Caso não sejam essas situações, lembre-se que você não está em nenhuma competição, está lá para curtir a natureza, se divertir, e interagir com seus amigos. Caminhando lentamente, você terá mais chances de observar as belezas à sua volta e de bater um ótimo papo com quem estiver perto de você. Ah, e se estiver em locais onde sabe que é possível observar animais, converse baixinho para não espantá-los! Boas trilhas, Bulha.
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