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NÃO DEIXAR RASTROS
Texto: Rodrigo Bulhões
Minhas considerações: A melhor forma de organizar a cozinha é em forma de arco, com o fogareiro à sua frente, e os outros objetos postos lado a lado, ao alcance da mão. O combustível deve e ficar bem atrás do cozinheiro(a) para evitar contaminação e incêndio, e nada deve ser colocado além do fogareiro, para evitar queimadura se alguém tentar alcançar algo por cima dele. Em locais com aparecimento frequente de animais, também é bom que a cozinha fique a uns 100 m do local das barracas, a favor do vento em relação a estas, e distante outros 100 m da cozinha e das barracas, formando um triângulo em relação a estas, deve ficar o armazenamento de suprimentos, de preferência numa bolsa fechada pendurada em uma árvore por um cordelete, fora de alcance de animais. O ato de não deixar marcas da cozinha de acampamento começa antes de você sair de casa. Parte da preparação e do planejamento envolve reempacotar sua comida para minimizar lixo em potencial, assim como para diminuir o peso que você vai carregar. Com um planejamento apropriado de refeições e cozinhar com cuidado (quer dizer, não queimar a comida), você pode eliminar a maioria das sobras. Mas, caso você acabe com comida pronta de sobra, seja ponderado e coma-a em outra refeição, ou leve-a embora com você. Não cave um buraco ou faça uma fogueira para dispensar sobras de cozinha ou material não inflamável como papel alumínio. O lixo não tem lugar no agreste. Carregue de volta o que você trouxe, inclusive papel higiênico. Algumas sobras, como água que sobrou de um cozimento e de lavar panelas, não podem ser levadas de volta. Esta água deve ser dispersada amplamente, no mínimo 60 metros longe de qualquer fonte de água e de locais de acampamento. Remova todas as partículas de comida da água antes de dispensá-la (uma pequena peneira é útil para isso), e empacote-as com o seu lixo. Uma exceção a isso são entranhas de peixes, que podem ser fontes de doenças se forem carregadas com você, e podem ser jogadas de volta nos rios, de preferência em águas profundas e bem movimentadas. Uma forma de aproveitar a água do cozimento do macarrão, é usando-a para fazer sopa instantânea de caneco, à venda em supermercados em pacotes individuais.
Em locais de pesca, informe-se com os moradores ou controladores locais sobre os procedimentos adotados.
E lembre-se: Peça permissão para pescar em propriedade privada.

Use somente sabão biodegradável e, de preferência, apenas para tomar banho e lavar as mãos antes de preparar a comida. As panelas e utensílios de cozinha podem ser limpas com aeradores ou escovas naturais, como areia, pinhas, tufos de grama, barro, e neve, e depois enxágue bem os utensílios, e jogue água fervente neles antes de utilizá-los. Com esse método, quase nenhuma água com sabão é deixada no meio ambiente, e também evita dores de estômago causadas por restos de sabão em panelas. De qualquer forma, se você quiser usar sabão para lavar seus utensílios, use um sabão biodegradável.

Alguns ambientes naturais como cavernas e alguns cânions têm ecossistemas extremamente delicados. Nesse caso até os dejetos humanos sólidos e líquidos devem ser levados de volta, principalmente em locais de visitação frequente. No caso de cavernas com pouca visitação, faça o buraco para dejetos sólidos longe da entrada da caverna. A urina pode ser levada em garrafas PET. No caso das mulheres, absorventes higiênicos e tampões também devem ser levados de volta, pois são tão poluentes quanto fraldas descartáveis. As mulheres também podem utilizar um tipo de funil chamado “Freshnette” para urinar em pé e recolher o xixi na garrafa PET. Em cavernas o sistema de iluminação mais usado é o alimentado por carbureto. Um pequeno botijão tem dois recipientes, um de água, mais acima, e um de carbureto, abaixo. A água goteja no carbureto e entra em reação com ele produzindo um gás que alimenta a chama da iluminação. Sobra uma borra do carbureto que não pode ser deixado na caverna, tem que ser levado de volta, assim como todos os dejetos.
Segundo Sérgio Beck, o ideal seria que até as fezes fossem levadas de volta, não só de cavernas, mas de qualquer lugar, em sacos não transparentes e que não permitem que o odor saia, caso em que você terá que improvisar, pois eu ainda não conheço nenhum apetrecho que seja vendido para tal. Caso não seja possível, ele explica que, após defecar no buraco cavado, as fezes devem ser desmanchadas com um graveto, que também será enterrado junto, desfazendo a película de muco que retarda a decomposição das fezes. Após enterrar, disfarce o local. Em caso de vias longas de escalada em rocha, de mais de um dia, os escaladores devem levar o “Shit-tube”, um tubo de PVC fechado em baixo e com uma tampa de rosca em cima que deve ser pendurado abaixo dos escaladores, possibilitando que estes puxem o “tubo de merda” quando precisarem utilizá-lo, e, claro, um por pessoa.
É muito comum que em época de chuva os excursionistas cavem valas em volta das barracas para evitar alagamento. Não faça isso, ou pelo menos evite. Essa valas podem causar erosão. Planeje bem sua excursão e leve uma barraca apropriada para o clima a que você for se sujeitar, ou seja, que aguente uma coluna d’água condizente. Caso seja obrigado a fazer uma dessas valas, depois cubra-as com terra e pedriscos. Existem exceções, é claro, principalmente em caso de emergências.

Glossário:
Cairn: termo castelhano para definir o promontório ou monte de pedras destinado a sinalizar percursos e trilhas em média e alta montanha. Também são conhecidos por hitos ou totens.
Bivaque: abrigo improvisado ao relento.

Mais informações:
www.lnt.org - Leave No Trace.
www.aventurajah.com.br - Sérgio Beck.
www.jadeandpearl.com/catalog/index.php - Tampão reutilizável de esponjas do mar - “Sea Pearl”.
www.coisasdemulher.com.br/abio.htm - Absorventes reutilizáveis feitos por Diana Hirsch.
www.nols.org - National Outdoor Leadership School (Escola Nacional de Liderança ao Ar Livre).
www.rei.com - Freshnette - dispositivo de plástico reutilizável que permite à mulher urinar em pé, em lugares de pouca higiene ou mesmo em atividades ao ar livre.
www.geocities.com/leberns/detergente-ecologico-rece.html - receita caseira de sabão biodegradável de menor impacto.

Bibliografia recomendada:
BECK, Sérgio. O Livro de Aventura do Excursionista Decidido. Disponível no site.
BECK, Sérgio. Ratos de caverna. Disponível no site.
BECK, Sérgio. Convite à Aventura. Disponível no site.
MEYER, Kathleen. Cómo Cagar en el Monte. 4ª edición. Madrid: Ediciónes Desnível. 2001.
MACMANERS, Hugh. Manual Terra de Vida ao Ar Livre. 1ª edição. São paulo: Revista Terra/Editora Abril. 1995.
PEARSON, Claudia (Editor). NOLS Cookery. 5th edition. Mechanicsburg: Stackpole Books. 2004.

Boas trilhas, Bulha.
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